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O que foi a Cavalaria? Primeira Parte .

O que foi a Cavalaria medieval?






A palavra cavaleiro”, na realidade, comporta várias significações diversas, não acentuadas pelos historiadores.




Weiss, em sua “História Universal”, comentando o trabalho de Ischer intitulado “Sobre la caballería y la nobleza hacia fines de la Edad Media”, assim se expressa:




“Ultimamente vem-se descobrindo com frequência que, em muitos conceitos, temos uma ideia falsa das relações entre a nobreza e os homens livres comuns; que na segunda metade do século XV o número dos cavaleiros propriamente ditos era muito menor do que poderíamos pensar, ao passo que o dos cavaleiros de nascimento era muito maior; e que comumente se confunde o emprego das armas com o armar-se cavaleiro, embora só entre os cavaleiros de nascimento este último fato estabeleça uma hierarquia ideal”. (J.B. Weiss, “Historia Universal”- Tipografia la Educación, Barcelona, 1927, vol. V, p. 503)




Este trecho nos revela uma importante distinção acerca do significado da palavra “cavaleiro”.

Segundo Voise, existem duas espécies de cavaleiros:

1) os cavaleiros propriamente ditos;

2) os cavaleiros de nascimento.

O mesmo autor mostra ainda que não se deve confundir a entrega das armas com o ato de “armar-se cavaleiro”. Esta afirmação nos conduziu à conclusão de que a palavra cavaleiro não é sinônima de guerreiro medieval.

Em vista disso, parece defensável a tese de que existe uma diferença fundamental entre exército feudal e Cavalaria.




Por outro lado, Funck-Brentano, em seu livro “Le Moyen Âge”, afirma.




“Deve-se distinguir a Cavalaria da nobreza feudal, mesmo considerando que esta última fora a semeadura daquela, e que quase todos os barões feudais tenham sido armados cavaleiros.

“A Cavalaria constituía uma Ordem, cuja recepção, que em geral recaía sobre fidalgos, se desenrolava numa cerimônia religiosa chamada “investidura”.

“Esta compreendia o “adoubement” conferido por um cavaleiro, o mais das vezes o suserano do feudo, cujo domínio pertencia ao recipiendário.

“Mas a nobreza não era uma condição rigorosamente exigida, e até mesmo servos foram armados cavaleiros plenos.

“Houve também muitos nobres que ficaram escudeiros durante toda a vida, por causa das grandes despesas de guerra que o adoubement acarretava”. (Funck-Brentano, “Le Moyen Âge” - Hachette, Paris, 1947, p. 154)





Existe, portanto, uma diferença entre Cavalaria e nobreza feudal.

Ora, na Idade Média a nobreza feudal estava encarregada de empreender as guerras; ela constituía, por assim dizer, o exército feudal. De maneira que, baseados em Funck-Brentano, podemos já estabelecer que a Cavalaria era distinta do exército feudal.

Léon Gautier, em sua célebre obra “La Chevalerie”, assim se expressa:


“Daí resulta que não só no mundo romano não se encontra uma tal instituição, mas que também a Cavalaria e o feudalismo são coisas distintas, embora frequentemente se faça confusão entre ambas.

“Feudalismo nasce do feudo, que era a recompensa dada àquele que se entregava à proteção do mais forte. Ao senior, que outorgava terras como presente, o vassalo (vessus) devia assistência.

“Quando o seguia na guerra, era porque os vassalos eram necessários para a defesa dos territórios que eles mesmos recebiam. O feudo é uma concessão de terra que envolve uma obrigação militar.

“O sistema feudal, assim entendido, não possui nada de comum com a Cavalaria.

“Esta é uma espécie de corpo privilegiado, onde se entra sob certas condições e segundo um ritual determinado. Nem todo vassalo é necessariamente cavaleiro, e alguns preferem recusar a Cavalaria em virtude das despesas de sua recepção.

“Mais de uma vez foi ela conferida a pessoas do povo que jamais tiveram feudos, não devendo a ninguém o dever feudal, além de ninguém lhes dever o mesmo.

“As canções de gesta citam muitas vezes casos de vilões que se tornaram cavaleiros, como por exemplo o lenhador Varocher, armado pelo próprio imperador, ou os dois servos do conde Amis, que também o foram por causa do desvelo que demonstraram para com seu amo.

“O feudalismo tornou-se hereditário. Entretanto, a Cavalaria jamais o foi. À falta de outros argumentos, este já seria suficiente. O feudalismo foi um sistema econômico e social; a Cavalaria, porém, um ideal”. (Léon Gautier, “La Chevalerie” - Arthaud, Paris, 1959, pp. 31-32)


Estas palavras de Léon Gautier nos fornecem dados muito valiosos. Em primeiro lugar, fica claro que o feudalismo era uma instituição distinta da Cavalaria.

Em segundo lugar, o serviço militar era algo requerido pela simples posse de feudos, ou seja, o exercício militar era algo exigido pelo feudalismo. Em terceiro lugar, todo vassalo devia prestar serviço militar, mas nem todo vassalo era cavaleiro.

Podemos então afirmar que a condição de guerreiro não supõe a condição de cavaleiro.

Todo aquele que possui feudo é necessariamente um guerreiro; tem a obrigação de acompanhar o seu suserano, quando este o convocar para a guerra.

O exército feudal é o conjunto de todos os feudatários em torno de seus suseranos e marchando para a batalha. Eles são militares antes mesmo de serem cavaleiros, isto é, membros da Cavalaria.


Frei Pacômio -O monge que voltou 400 anos

Em princípios do século décimo, vivia num convento de beneditinos um santo religioso, chamado frei Pacômio, que não podia compreender como os bem-aventurados não se cansam de contemplar por toda a eternidade as mesmas belezas e gozar dos mesmos gozos.
Um dia mandou-o o Prior a um bosque vizinho, para recolher alguma lenha. Foi com gosto, mas mesmo no trabalho não o largavam as dúvidas.
De repente ouviu a voz de uma avezinha que cantava maravilhosamente entre os ramos. Ergueu-se e viu um animalzinho tão encantador, como jamais vira em sua vida. Saltava de um ramo para outro, cantando, brincando e internando-se na selva.
Seguiu-o frei Pacômio, todo enlevado, sem dar-se conta do tempo nem do lugar.
A certa altura a avezinha atirou aos ares o último e mais doce gorjeio e desapareceu. Lembrando-se então de seu trabalho, frei Pacômio procurou o machado para voltar ao convento. Mas — coisa estranha! — achou-o enferrujado. Quis pegar o feixe de lenha que ajuntara, mas não o encontrou.
— Alguém mo terá roubado? — pensou.
Pôs-se a andar, mas não encontrava o caminho. Chegou, afinal, à beira do bosque, mas não encontrou o mato que tão bem conhecia. Ali estava agora um campo de trigo, em que trabalhavam homens desconhecidos. Perguntou a um deles o caminho do mosteiro, pois de certo se havia extraviado. Todos olharam para ele com surpresa, e em seguida indicaram-lhe o mosteiro.
Chegou afinal ao mosteiro. Mas — grande Deus! — como estava mudado! Em lugar da casa modesta de sempre, viu um edifício magnífico ao lado de uma grandiosa capela. Intrigado, bateu à porta; um irmão desconhecido veio abrir.
— Sois novo aqui — disse-lhe Pacômio. — Eu venho do bosque aonde me mandou esta manhã o Prior D. Anselmo, para buscar lenha.
Admirado, o porteiro deixou ali o hóspede e foi avisar o Prior que estava na portaria um monge com hábito velho, barba e cabelos brancos como a neve, perguntando pelo Prior Anselmo.
O caso era curioso. O Prior, abrindo os registros do convento, descobriu o nome do Prior Anselmo, que ali vivera quatrocentos anos antes.
Continuou a ler, e achou nos anais daquele tempo o seguinte:
— Esta manhã frei Pacômio foi mandado buscar lenha no bosque e desapareceu.
Chamaram o hóspede e fizeram-no entrar e contar a sua história.
Frei Pacômio narrou o caso de suas dúvidas sobre a felicidade do paraíso, e o Prior começou a compreender o mistério.
Deus quis mostrar ao pio religioso que, se o canto de uma avezinha era capaz de encantar-lhe a alma por séculos inteiros, quanto mais a formosura de Deus há de embevecer os bem-aventurados por toda a eternidade, sem que eles jamais se cansem.